sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um parque de diversões

As flores de outono caiam de forma desajeitada naquele parque. Não desciam com elegância como faziam na primavera.Eram arrancadas pelo vento, suas pétalas secas varridas ao lado de sacos de pipoca, galhos frágeis e camisinhas usadas.Os ossos finos de Gabriel vibravam com aquela brisa, ameaçando ser varridos também.Gabriel era frágil.Tinha 8 anos e não sabia que crianças não são arremessadas por correntezas de ar de parquinhos. A única coisa que sabia era o que sentia: o
vento que puxava seu corpo mirrado, enquanto seus joelhinhos lutavam com aquela força invisível, que gritava em seus ouvidos. Sentia um bafo gelado na nuca. Aquela criatura ou seja lá o que for devia estar muito, mas muito perto.

O pavor o tomou de sobremaneira que sobrepôs até mesmo a sua típica xeretice de criança, de quando pouco se conhece e muito se fascina, curioso. Ao invés disso calava-se, corria e não olhava para trás, preso as imagens já pintadas da situação: Bicho papão, bruxas, fantasmas e ursos polares assassinos. Independente de qual fosse, eram todos terríveis. Não queria ver o que enfrentava, pois sim, sabia que era frágil. Também batia a vontade de chorar. Sua garganta cutucava, mas o choro esperneado ou até mesmo um berro não saia, seu corpo não abria espaço para exprimir seu desespero: Estava ocupado demais bombeando seus pulmões menores do que uma mão e suas pernas mirradas, ao ponto de se partirem como gravetos por correr tanto.

Aos 8 anos Gabriel descobria o desespero e a euforia. Mal sabia que seu vínculo com elas só estreitaria com o aumentar dos anos, contas e pisos salariais.

Todo conto cheio de tensão tem o elemento 'X' - Um divino acontecimento feliz que muda o curso da história - E não será aqui que haverá uma exceção. Bastou alguns segundos a mais para o pequenino conhecer a fé, grande amiga que substitui qualquer
tipo de amizade com as duas indesejadas companhias anteriormente citadas. Já que o autor que vos escreve sofre no momento de uma tremenda falta de criatividade, me apropriarei de um velho clichê - as pernas de um homem adulto, nesse caso específico, de um pipoqueiro - para metaforizar a fé, na qual Gabriel dá de frente depois de correr algumas boas milhas. Agarrado com todas as forças que suas mãos miúdas permitem, Gabriel tentava através da dor e intensidade do agarrão comunicar o tamanho do desespero que sentia para o velho de cara mal-lavada. As escassas palavras que aquele garotinho conhecia não eram suficientes para expressar sua aflição.

O pipoqueiro então chacoalha um pouco sua cabeça, rindo de Gabriel. Pega ele no colo, e explica que é tudo coisa da sua imaginação. Não existem bichos papões, bruxas, fantasmas e ursos polares assassinos. Tampouco algum duelo ou perseguição
implacável, ou uma ameaça ao mundo. Não, era só papai do céu que espirrou bem forte e o Papa-léguas que deu uma voltinha ao redor do parque. Fadinhas mágicas voando tão rápido que você nem viu, garotinho. O bem triunfava, todos eram seus amigos e
não havia o porquê de Gabriel se sentir em risco.




As flores da primavera se erguiam de forma imperial naquele parque. Não murchavam como faziam no outono, e nem eram arrancadas pelo vento, preferindo deixar seu pólen a dançar uma linda valsa magistrada pela natureza, o ar ordenando o ritmo e os insetos, com suas infinitas cores e tamanhos, criando a melodia. Gabriel passeava com total controle e segurança sob aquele parque, cada passinho seu mui bem protegido. As vezes acelerava os passos e corria. Não demorava muito para perceber que era meio idiota fugir de coisa alguma. Fazia então uma cara birrada, chorava meio marrento e socava o ar bravo, imaginando a cara de bolacha daquele pipoqueiro boboca.
E desejava como nunca que o inverno e seus ursos polares assassinos voltassem.

Um comentário:

  1. Ow cara! Curti demais esse conto. Muito bom mesmo, você escreve mais legal do que eu achei, apesar de que o que eu já tinha lido (o "conto" do carlão rsrsrsr) era ótimo já. Mas você não se limita só a um tipo de escrita, é bem versátil e escreve bem, e cria bem, e o conto está ótimo! Ler foi um prazer ^^

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